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meu relato UAI 135km

July 2, 2017

Rio de Janeiro – Domingo

 

Correr ultramaratonas sempre foi um sonho pra mim. Desde que comecei no esporte, eram essas provas que me emocionavam, e que ainda me emocionam!

 

Acabei de sair aqui do hotel em Passa Quatro, e na rua passava um casal de Argentinos prestes a cruzar a linha de chegada dos 235km da Ultra dos Anjos. Meus olhos encheram d´água... olhei no relógio e calculei rápido... 48 horas de prova!! Eles sorriram e agradeceram a torcida. Eu fiquei observando eles ali se afastando.... lembrando com detalhes dos meus recentes 135km...

 

A largada na grama da Pracinha foi incrível, simples e com uma ótima energia. Encontrei amigos que não via a muito tempo, e era tanto assunto que nem tive tempo de sentir aquele nervoso pré largada. O hino do Brasil tocava lá, mas a gente queria era aproveitar aqueles minutinhos pra colocar o papo em dia!! 8:00 em ponto largou... e agora minha prova começava.

 

Foco total !

O que isso significa?

Observar com atenção as marcações, comer e beber... essa foi minha rotina até eu cruzar a linha de chegada nos 135km. Olhar as setas amarelas, beber, comer... e aos poucos descobri que também ia precisar (e muito) das “biroscas” que surgiam escondidas como pequenos “prêmios” ao longo do percurso. Lá eu me abastecia de coca cola gelada e algumas coisas salgadas, como batatas e azeitonas, e me divertia com a forma como os locais me observavam manusear o bladder na mochila, a headlamp e o colete refletivo. Eu saia de cada uma delas sorrindo em silêncio, feliz com os novos mantimentos e alegre com as palavras de carinho e incentivo que recebia.

 

Posso separar a prova em duas partes... até o 65km e depois do 80km. Essa primeira parte foi rápida, quente, ensolarada e com a companhia do Emerson (que acabou vencendo os 235km). O Emerson já conhecia o percurso, e foi ele que me ensinou as dicas das “biroscas” e me incentivou a manter um ritmo bom com uma conversa leve e alegre. Compartilhamos nossas lembranças e experiências em provas, e o tempo passou rápido demais!! Quando notei lá estava a gente deixando para trás Itamonte, com suas longas estradas de terra batida, e chegando em Alagoa. Era nessa pequena cidade que estava o segundo posto de controle, onde eu pegaria minha sacola com comida e agasalhos. Minha previsão era chegar lá com 9 horas de prova, mas com 7:30 já estávamos lá.

Mas...Minha sacola não chegou!! Pára tudo... Vi meu anjo da guarda Emerson seguir viagem, enquanto eu tentava com alguns conhecidos montar um kit de comida para conseguir seguir até o próximo PC, no 95km.

 

Nesse ponto minha prova mudou, o ânimo desapareceu e senti aquele “peso” da quilometragem. Saí de lá sozinha, carregada de comidas inusitadas ( estranho demais para alguém acostumada a se alimentar de forma regrada com gel a cada 30min) como sanduiche de salame e batatinhas fritas!! Mas logo me vi cercada por uma paisagem linda, por uma estrada de terra com suaves subidas e a alegria voltou. Radiante vi as últimas luzes do dia colorindo meu caminho e com muita calma e tranquilidade me preparei para a longa noite. Por volta do 80km alcancei outro atleta, cujo nome não consigo lembrar. Outro anjo que surgiu para me acompanhar nessa jornada. Juntos compartilhamos os últimos 55km da Ultra dos Anjos.

 

Sonhando com o Cup Noodle chegamos no PC do 95km na animada cidade de Aiuruoca, passamos por barzinhos e restaurantes sempre recebendo o carinho dos moradores. Uma das grandes surpresas pra mim dessa prova foi a qualidade destes postos de abastecimento, eram estruturas simples, mas com todo o suporte necessário. E lá estava minha sacola perdida do 65km, e a sacola do 95km!!!

 

 

Repleta de guloseimas eu e meu amigo começamos a tal temida subida em direção à Cachoeira dos Garcia. Nesse momento minhas mãos tremiam, mesmo segurando minha segunda porção de Cup Noodle quentinho eu sentia meu corpo gelado, mas com confiança de que o esforço da subida iria reverter essa situação. E foi justamente o que aconteceu! Tirei as luvas e cheguei a abrir o casaco, levantando as duas camisas de forma a deixar o vento gelado refrescar minha barriga. Foram 2 horas e trinta minutos exatos até chegarmos ao restaurante do Casal Garcia. O céu limpo, repleto de estrelas e minha alegria ao avistar as luzes da casinha me trouxeram uma sensação plena de felicidade. Naquele momento eu tinha certeza absoluta que nada me tirava do sonho de completar os 135km. Trotamos alegres até o charmoso restaurante, e como uma cena de filme, fomos recebidos com taças de vidro e pratos de louça servidos em uma mesa perfeitamente posta em frente a uma lareira.

 

- Temos que sair logo daqui!!!

 

 

 

 

E depois de recarregar nossa mochila com água praticamente fugimos daquele lugar confortável demais, que facilmente poderia nos deter por horas!!! Fizemos a descida atentos aos trechos de pedras irregulares e correndo bem nos trechos de terra batida... que delícia de prova!! Foram 25km de uma descida técnica que nos levou diretamente à linha de chegada. Ahhhh... que alegria!!

 

Lá mesmo recebi meu troféu, o recorde da prova na modalidade Survivor e uma cadeira confortável em frente ao fogo... só faltava minha família.

 

Mas agora... eu, André e Maria juntos olhamos o casal de Argentinos se afastando, e sinto que nesse momento não preciso de mais nada na vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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