© 2017 VAI CORRENDO. Orgulhosamente desbravando as trilhas

Relato da INDOMIT 100MI

October 30, 2017

Rio de Janeiro – Segunda feira

 

De volta a velha e boa rotina. Na minha frente uma relação gigante de pendências e ajustes para fazer no projeto que estou trabalhando, mas com um sorriso no rosto e com muita tranquilidade foi riscando cada uma delas, afinal... depois de completar as 100MI da INDOMIT Costa esmeralda... qualquer desafio ficou fácil!!

 

Eu sabia que a prova seria dura, mas não imaginava que seria tão cruel. Sim... a INDOMIT 100MI foi uma prova impiedosa, que nos testou ao limite! Dos quase 70 que largaram, apenas 10 concluíram, o que mostra como foi difícil essa prova. Difícil... porém elaborada com perfeição, com marcação impecável e staffs altamente preparados, o que mostra o alto nível de preparo da organização, que fez história com essa prova totalmente pioneira no Brasil.

 

A largada no cantinho da Praia de Bombas foi dada pontualmente as 14:00. E eu estava feliz, cercada por amigos e rostos familiares. Tenho uma paixão por essas provas de longa duração, e admito que não sinto medo, ansiedade e nervosismo antes da largada, minhas preocupações são em ter o equipamento todo arrumado e estar com saúde, e por isso... quando ouvi o som da largada eu comecei minha jornada repleta de felicidade e agradecendo pela oportunidade de estar ali!!

 

De uma forma simplificada, o percurso se resumia a dar duas voltas. A primeira de 58km, e a segunda de 100km. Minha estratégia foi focar nesses primeiros 58km e fazer com qualidade, para que eu pudesse ter uma “folga” maior na volta final, que eu já sabia que seria mais técnica. Minha prova era contra o tempo, já que nós tínhamos apenas 28 horas para concluir esse desafio!

 

Correndo leve, e com o tênis Ultra Trail da The North Face, os primeiros 38km até eu ter acesso a minha Drop Bag foram tranquilos. Eu corria exatamente no habitat que eu gosto, com bastante alternância de pisos e altimetria variando levemente.

 

 

 

Os postos de abastecimento estavam localizados exatamente conforme foi disponibilizado no site, e a marcação do percurso clara e abundante... a situação ideal para que eu pudesse relaxar e fazer o que mais gosto... correr!! E foi abençoada pelo arco íris mais lindo que vi na minha vida, que corri pela Praia do Mariscal vendo o dia anoitecer lá pelo 48km... tudo perfeitamente como planejado.

 

Mas eu não podia imaginar o que estava por vir!! Lá pelo 75km nós começamos a fazer as “alças” que seriam o grande diferencial em relação a primeira volta. Era noite e com uma chuva fininha. Não estava frio, e entre as nuvens surgiam inúmeras estrelas brilhantes e uma lua crescente que parecia iluminar meu caminho cada vez que se destacava no céu. Olhando no gráfico essas subidas de uns 400m de ganho de altitude pareciam inofensivas... mas...  foram técnicas ao extremo.

 

E nesse martírio sem fim, escorregando e caindo e segurando em troncos de árvores que finalmente cheguei ao Posto de Abastecimento 3 (108km), onde estava minha Drop Bag. Uma luminosidade já aparecia no horizonte e era hora de sentar e relaxar, trocar de equipamento, ver minha equipe... e manter a calma para seguir adiante. Meu marido dizia:

 

–        Pára de reclamar!!

 

Eu não conseguia!! Estava irritada porque o percurso simplesmente não permitia correr... de tão técnico que era... apenas caminhando era possível se locomover mata adentro. E eu estava preocupada com as 28 horas limites para terminar.

 

Um dia lindo surgiu. Eu no 120km ainda me sentia forte e conseguia comer com apetite! O relógio apitava a cada 45min e eu alternava entre um gel da Advanced Nutrition, um Energy Block e uma comida salgada (Batata Pringles e Tapi do Amor ao Natural). Além disso comecei a encontrar com os atletas que corriam 50km, 100km e 80km... e que alegria a energia que cada um me passava. Nossa... como eu corria feliz!!! Até que .... perto do 132km... tinha uma placa da organização com uma seta para pegar a esquerda.

 

- Segunda volta das 100MI pega a esquerda mesmo?

O staff sorridente me disse que sim. E lá eu fui junto com os demais atletas rumo a uma surpresa... um trecho de aproximadamente 4km por dentro de uma mata fechada com um piso irregular e de muita dificuldade. Eu me perguntava a cada instante... como alguém podia pensar em fazer um percurso desses nos últimos 22km de uma prova de 160km?? Eu desabei. Minhas pernas estavam fracas. Meus dedos latejavam e eu comecei a andar... só que agora desanimada. Sentia as lágrimas rolando pelo meu rosto. Uma mistura de raiva com medo... será que eu consigo chegar?

 

 

 

Andei a Praia do Mariscal quase toda... Até que me juntei com outro atleta dos 50km, um santo!! Jasiel me deu uma injeção de ânimo.

 

- Você vai completar!! Você consegue

 

Voltei a sorrir. Voltei a trotar. E quando pisei na Praia de Bombinhas eu tive certeza que ia vencer aquela prova. Levantei as mãos para o céu e agradeci pela força que recebi. Pela energia que me acompanhou nessa jornada. Na minha cabeça vinham lembranças de momentos tão especiais junto ao mar e eu parei por uns instantes e me molhei com a água salgada, que se misturou com o choro e no final quando vi já estava na Praia de Bombas. Logo ali... a meta de chegada!! Foram 27 horas de prova, com certeza a maior aventura da minha vida.

 

Segurei a mão da minha filha. Que alegria sentir aquela maõzinha tão delicada junto com a minha. Nós sorrimos e juntas corremos até pegar a faixa da INDOMIT com a certeza de que a força provém de uma vontade indomável!

 

 

 

 

 

 

 

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