© 2017 VAI CORRENDO. Orgulhosamente desbravando as trilhas

Meu relato das 100MI Patagônia Run 2018

April 11, 2018

 

Nem nos maiores sonhos eu poderia imaginar que minhas 100MI da Patagônia Run seriam completadas em 27 horas. Mas é realidade sim… eu concluí esse super desafio em terceiro lugar feminino e com uma alegria que transbordava a cada passada a caminho da tão sonhada meta de chegada na cidade de San Martin de Los Andes. 

 

Fiz alguns erros ao longo da prova, aliás, as corridas longas duram tanto tempo e envolvem tantos detalhes que é quase impossível não fazer alguma besteira. Mas consegui lidar bem com os empecilhos que surgiram, e no final foi um saldo bem positivo. Certamente alguns ajustes ainda serão necessários para o UTMB, mas com certeza estou no caminho certo e já vejo uma boa evolução desde que fiz minha última prova de 100MI, a Indomit Costa Esmeralda em Novembro 2017 

 

Vou fazer um breve relato da minha experiência, porque acredito que possa ajudar e incentivar outras pessoas em suas jornadas. 

 

A ideia de correr essa prova surgiu em 2014. E fiz minha inscrição para os 100km de 2015, mas a notícia de que estava grávida da Maria adiou nossos planos por 3 anos... até esse ano de 2018. Mas aí surgiu outro problema...estava sem dinheiro extra para fazer viagens internacionais. Foi aí que surgiu a ideia de fazer um Crowdfunding. Deu bastante trabalho, mas em três meses com a ajuda de amigos e conhecidos consegui finalmente organizar minha ida com a família para San Martin de Los Andes.  

 

Quando pousamos em Bariloche na quarta-feira eu segurei a mãozinha da Maria e meus olhos encheram de lágrimas. Agora sim... nada me separava do meu sonho. E tudo passou muito rápido até sexta feira 12:00 quando caminhava em direção ao Lago Lacar para a largada. Esses dias que antecedem as provas são repletos de coisas a fazer e o tempo parece acelerar! Dei um beijo na Maria e um beijo no André.  

 

- Até breve! 

 

E assim começou minha jornada 

 

O início da corrida era marcado por uma longa subida, isso eu tinha visto na altimetria da prova, mas não imaginava que seria tão bonita e tão cheia de vida! Me impressionou logo a quantidade de pessoas agrupadas ao longo da via aguardando nossa passagem. Éramos uns 200 atletas e dava pra sentir uma energia incrível em tudo aquilo. Apesar do sol, e da intensidade da subida, eu já vestia uma camiseta de manga longa Warm da The North Face enquanto seguia a caminho do cume do Cerro Chapelco. E que subida!!! O trecho final era um ataque vertical hiper acentuado, mas valeu a pena... porque o visual do topo era estonteante!! Neve e pedras por todos os lados. Passei pelo segundo posto de Abastecimento, PAS del Filo, a 2.000m de altitude, e após fazer meu refil de água comecei a descida a caminho da Laguna Verde. Foram 5km bem técnicos, cheio de pedras soltas, charcos e neve. Em uma dessas travessias de charcos perdi meu tenis!! Achando graça da situação dei uns passos pra trás e recuperei meu Ultra Cardiac afundado na lama... e acelerei pra não perder o ritmo, já que nesse momento estava entre as cinco primeiras mulheres! 

 

 

No 40km começava a esfriar um pouco, então quando parei no PAS Miramás acrescentei à minha roupa uma camiseta de lã de merino de manga longa e coloquei um gorro. Enquanto me vestia um simpático staff enchia de água minhas garrafinhas.

 

 

A paisagem e as vegetações eram lindas e eu corria ouvindo música e sorrindo de alegria pela oportunidade de estar ali desfrutando de tudo aquilo. A disputa entre terceiro e segundo lugar estava acirrada, e os 15km até o Posto de Abastecimento onde estava meu Drop bag passaram rápido. Já era noite quando cheguei a Puentes de Luz, no 55km. Lá entrei com bastante calma. Sentei e troquei meu short por uma calça comprida, também da linha Flight Series, e enquanto comia meu macarrão instantâneo vi a atleta com quem estava disputando sair correndo do Posto de Abastecimento... eu não me deixei influenciar, e com calma acabei minha pequena refeição e dei início a uma nova fase da corrida.  

 

Noite! Os próximos 50km da prova foram percorridos no escuro. Minha headlamp da Petzl é excelente, e a marcação do percurso da Patagonia Run é impecável, e por isso correr a noite se tornou muito agradável. No segundo Drop Bag, no 85km PAS Colorado 1, eu pela primeira vez troquei meu tênis e é impressionante como é revigorante colocar uma meia limpinha e um tênis novo!! Mas a alegria durou pouco, porque chegou uma sequência de pequenos rios a serem cruzados... e que frio era molhar o pé de madrugada!!  

 

No 95km começou a última grande escalada da prova, a subida do Quilanlahue. Eu estava com a alimentação perfeita, me sentindo forte e muito animada com meu segundo lugar na disputa do feminino. E esse foi com certeza o trecho mais duro de toda a prova! No topo do Quilanlahue estava gelado, dizem que chegou a –5 graus!! Eu rapidamente abri a mochila e vesti meu GoreTex. Minhas mãos estavam inchadas e era difícil vestir as luvas. O que me animava era saber que agora a prova ficava "fácil"... pelo menos no gráfico de altimetria!! 

 

E foi seguindo por costeiras, florestas e charcos e cheguei ao PAS Quechuquina, no 120km. Nesse ponto meu relógio Garmin entrou em bateria crítica e apagou. Eu estava com umas 19 horas de prova, e fiquei perdida quando ele desligou. Toda minha alimentação estava baseada no tempo... e agora... ainda faltavam 40km!! Calma.. Calma eu repetia. E foi quando resolvi usar a música como referência. A cada 9 músicas eu comia, mas não deu muito certo, porque eu me perdia na contagem!  

 

No último posto de Drop Bag, PAS Colorado 2, eu voltei a colocar os shorts. Trocava de roupa ali sentada mesmo, e ninguém se importava!! Minhas mãos inchadas me impediam de trocar meu tênis. E foi um senhor simpático que calcou meu Ultra Endurance da TNF. Ali, nos 143km eu comecei a sentir as pernas pesadas... sabia que ia chegar, mas sabia também que ia ser sofrido esses últimos 17km de prova. E foram lentos e sofridos, alternava trote lento com caminhada. O percurso passava por um parque com trilhas bem marcadas e abertas, e uma infinidade de atletas de outras distâncias me ultrapassavam. A cada minuto eu tinha que sair da trilha para dar passagem... mas meu pensamento era apenas um... a linha de chegada!!  

 

Esses quilômetros finais foram emocionantes, uma luta sem fim para se manter correndo. Eu cospia muito catarro, e parece que a suave gripe que me acompanhou na semana pré prova havia em horas se transformado em uma forte gripe!! Bolas de catarro verde secas colavam na minha mão cada vez que eu cuspia... eca!! Já conseguia ouvir o alto falante na cidade e imaginava a festa da chegada, mas ainda faltavam 4km dizia a placa pendurava em um galho de árvore. 4km?? Parecia uma infinidade... e foi quando passou a Eliana. Será que outras mulheres vão me passar também? Arrumei forças e recomecei meu trote lento...e de repente lá estava o Lago Lacar e eu chorava. Pensava na Maria e desejava muito que ela estivesse lá me esperando. 

 

- É a Brasileira!!! 

 

Eu sorria... acenava e gritava... Brasil!!! 

 

Cruzei a linha em 27 horas sem a Maria, sem a nossa bandeira, mas com a certeza de que dei o meu melhor. Com a certeza de que representei muito bem nosso país, com garra, alegria e educação. Agradeço demais cada uma das pessoas que me ajudou a estar nessa corrida e digo que valeu cada instante !!! 

 

 

 

 

 

 

 

Please reload

Posts Em Destaque

Meu relato das 100MI Patagônia Run 2018

April 11, 2018

1/1
Please reload

Posts Recentes

September 11, 2017